| Luisa's profileMelodyPhotosBlogLists | Help |
|
February 19 Medo do medo...
Fomos educados para procurar razões para tudo. Disseram-nos que
a superstição, e a irracionalidade eram sintomas de um estado civilizacional
inferior, e estimularam em cada um de nós o seu espírito
científico: há sempre uma causa, o importante é descobri-la.
E a causa tem que ser, diz esta educação científica, palpável e visível,
comprovável por um exame médico ou uma análise, qualquer coisa que
pode ser demonstrável e um médico, de bata branca, capaz
de decifrar.
Por isso quando estamos constipados, não nos deitamos na cama
a chá com mel, à espera que passe,mas perguntamo-nos incessantemente
se será viral ou bacteriana, se passará apenas com umas
gotas para o nariz, ou com antibiótico, e por ai adiante, incapazes
de darmos tempo ao tempo, e sobretudo de aceitarmos que aceitar
a realidade não é sinal de fraqueza. Uf, não precisamos de estar
sempre a lutar contra tudo, como se fossemos um D. Quixote
ou um Sancho Panza. Mas enquanto os nossos «sustos» não vai mal. Incomóda, chateia,mas não nos leva ao pior de todos os terrores:o medo do medo. O medo que, em miúdos,é representado pelo receio de que uma bruxa se tenha escondido no nosso quarto, e que há medida que crescemos, e nos envergonhamos dos medos infantis, transformamos noutros, a que damos nomes mais pomposos e tentamos encobrir. Esses são aqueles que nos atacam quando menos esperamos. A verdade é que somos muito mais inteligentes do que nós própriosnos imaginamos.E o nosso sistem interno procura sempre,mesmo que não lhe demos essa ordem, o equilíbrio.Para consegui-lo tem sistemas de alarme que dispara quando estamos em perigo, de forma a que possamos reagir e voltar a instalar o clima de paz interior. O alarme toca quando enfrentamos um obstáculo – um leão de boca aberta, no caso de vivermos na selva, ou um assaltante, de faca na mão, do século XXI - e o corpo prepara-se para enfrentar o inimigo e, se necessário, fugir.Mas o que só recentemente descobrimos é que o alarme pode disparar sem razão aparente, e continuar a tocar, ensurdecendo-nos. Quem já passou por um ataque de pânico, ou por uma crise intensade ansiedade, sabe do que se está a falar. De repente, saído do nada, sente-se o coração bater a cem à hora, o peito aperta-se numa sensação de falta de ar, e a cabeça fica tonta e confusa, como se estivéssemos prestes a perder a consciência. Quando o primeiro ataque de pânico acontece, a vítima vai mesmo parar ao hospital, porque nada a convence que não está a sofrer um ataque de coração ou a morrer mesmo, e liga para o 112 com urgência. E ai a prestação domédico que atende o doente vai fazer toda a diferença para o seu futuro. Depois de eliminadas as causas físicas, se o clínico se limita a descartaro doente com um diagnóstico de «ataque de pânico», juntando à frase um ar de ligeiro desprezo, está tudo estragado.O doente, que se considera uma pessoa civilizada e racional, recusa o rótulo, que lhe parece uma forma de o desclassificar: então o homem está a dizer-me que sou um daqueles histéricos/histéricas, que « se deixa apoderar pelos nervos»? E pânico porquê e de quê, Santo Deus, se ia na rua a ver montras descansado davida, ou li a um livro em casa, no sossego dos anjos? Se ninguém lhe conseguir explicar que por razões que é preciso apurar, masque não têm que ser necessariamente físicas, o seu sistema interno reagiu de forma desproporcionada, vai tornar-se um hipocondríaco assustado, aterrorizado com a possibilidade de um novo ataque, e ansioso por descobrir uma causa física para o sucedido, multiplicando-se em análises e exames que o descansem. Que nunca descansam porque, vão dizer-lhe os médicos, «não tem nada». E quando não se «tem nada», é porque, pensa o doente, me estão a dizer que isto é tudo «da minha cabeça», ou seja estão a chamar-me louco. Mas, então, como é que se explica «racionalmente» um ataque depânico? Dizem os especialistas que são precisas duas ordens de explicações. A primeira é apresentar os sintomas em si: o cérebro foi enganado, precepcionou um perigo que não existia, e reagiu em conformidade. Enviou sangue para os músculos, para os preparar para a fuga, e ao tirar o oxigênio da cabeça para o mandar para onde era mais necessário, deixou a pessoa meia zonza, com aquela sensação horrível de desmaio iminente. Embora a vítima se sinta a morrer, precisa de saber, que o corpo nunca cometeria suicídio, e depressa retomará o seu normal funcionamento. Por isso, o doente pode ficar sossegado: o ataque é insuportável,mas auto-limitado. A segunda maratona de explicações, é aquela que se destina a levá-lo a entender que o nosso tipo de vida, cheio de stress, sentimentos reprimidos, raivas engolidas, produz dentro de nós monstros, como aqueles que se escondem debaixo da cama das crianças. Simplesmente, montamos a guarda, não permitindo que nos ataquem, guardando os monstros de que nem temos bem consciência, presos a sete chaves. Simplesmente mesmo o melhor vigilante tem momentos de distração e há um dia em que deixa que o medo se solte e nos ataque. É ai, entre duas linhas de um livro de histórias, o medo salta, implacável e o alarme toca, e toca, e toca. Enquanto a vítima não aceitar que é corpo e mente, e não apenas corpo, nada feito. Cortar o ciclo vicioso do medo do medo é difícil, mas fundamental. Consegue-se com ansiolíticos, e os portugueses são campeões no seu uso, e outrosmedicamentos, que só funcionarão, no entanto, caso se procure a ajuda de um psicoterapeuta, que ajude a descobrir onde estáo «erros» na gestão das nossas vidas, o que recalcamos e nos faz tão mal, o que metemos para dentro, sem sermos capazes de enfrentar. Só esse trabalho interior, sério e empenhado, pode levar a voltar a viver plenamente, mesmo que o medo do medo, fique sempre como uma sombra ameaçadora. Mas quem já passou por isto terá sempre uma vantagem: sabe que é mais forte do que ele, e deixa de ter receio de o olhar nos olhos. E os medos olhados nos olhos,fogem...
Comments (1)
TrackbacksThe trackback URL for this entry is: http://melodyfairy.spaces.live.com/blog/cns!8DF9A21B772AD2B5!926.trak Weblogs that reference this entry
|
|
|